Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

A vez de quem?













Não que ele seja único no filme, os outros atores também dão conta do recado, mas Javier Bardem é sensacional em Onde os fracos não tem vez. Assisti três filmes com ele: esse, Mar Adentro e Vick, Cristina, Barcelona. Nenhum dos personagens dele é igual a outro. Estou encantada e Bardem mereceu o Oscar que ganhou.

Mas quer saber onde os fracos não tem vez? Na morte. E sabe quem são os fracos? Os seres humanos. "Onde a humanidade não tem vez" seria um título mais adequado à sensação que tive do filme. Porque os fracos são todos os personagens, exceto o temeroso Anton, que vai ceifando quem cruza o seu caminho. Ele é a personificação da morte.

No universo em que o filme se passa, bem parecido com o nosso, não há espaço para os humanos, de repente se pisca e morre. Não há salvação. Por mais esperto que seja, em breve a impiedosa chega, certa de sua missão, calma, segura e meticulosa ela não erra o alvo. Não adianta fugir.

Se você se mete no caminho da Morte, ela te leva. Se você acha que pode superá-la, engana-se. Se resolve trabalhar pra ela, vai embora mais cedo. E mesmo que sua missão seja evitar que as pessoas cruzem o caminho letal, um dia você e os demais passarão por ela. No final, todos acordarão. E que mal há nisso?

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Muito além de Brokeback Mountain











Somos criados e educados para desempenhar certos papéis sociais. Homens e mulheres precisam crescer, aprender ofícios, desfrutar a juventude em festas e passeios memoráveis, encontrar um parceiro do sexo oposto. Ter filhos e criá-los para que cumpram adequadamente sua função social e assim, esperam-se os netos para serem paparicados com todos os mimos da Terra. No meio disso, devemos construir uma carreira profissional, trabalhar com afinco, manter uma casa e todo conforto que a sua geração permitir. Fazer algumas coisas inesquecíveis para serem repetidas nas conversas com amigos. Trair com classe ao menos uma vez na vida e fazer alguma cena de ciúme. O mesmo filme se repete há milênios.

Tudo isso parece meio monótono, pelo menos pra mim parece! Mas estamos programados a seguir essa trajetória, mesmo que ela não nos satisfaça. Quando alguém se recusa a cumprir sua função é logo tarjado de insano, doente, incapaz, inadequado. É colocado à margem e olhado com desconfiança, quando não são diretamente hostilizados e violentados. O que desencoraja os indecisos a tentar fazer diferente. Essa é a força do coletivo, da não-mudança, da manutenção da ordem social.

Por sorte, muitos sentem-se tão inadequados ao que a sociedade espera deles, que doam suas vidas ao trajeto errante dos que não sabem ao certo onde devem chegar. Por esses labirintos acontecem as mudanças. E ao assistir O Segredo de Brokeback Mountain, agradeci as muitas mulheres que não aceitaram sua trajetória de submissão ao casamento como forma de sobrevivência.

Num filme tão delicado e bonito sobre a questão homossexual, saltou-me aos olhos a transformação do papel feminino. As mulheres no pano de fundo contaram uma história paralela a dos caubóis, com uma sutileza infinita.


Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Quartas no cinema


















Esse post é em homenagem ao meu amigo Rafael, que enfrentou comigo todos os desencontros do dia 3 de junho. Explico...

Há muito tempo quero passar a marcar um cineminha com os amigos nas quartas-feiras. Esse mês decidi começar a fazer isso. Enviei e-mails para os mais próximos, com uma lista de três filmes e perguntei qual eles veriam comigo. A lista era, em ordem de preferência minha:

1. Il Divo (Mostra de cinema italiano)
2. Vocês, os vivos
3. Budapeste

Três pessoas me responderam dizendo que veriam Budapeste. O Rafael afirmou que veria Il Divo e outra amiga minha não deu certeza. Então decidi ver o mais votado. Enviei novos e-mails dizendo que assistiria ao filme brasileiro, minha última opção.

No dia, todas as pessoas que haviam votado no Budapeste não puderam ir. Então, decidi ligar para o Rafael e marcar de ver o filme italiano. A sessão, segundo eu tinha visto, seria às 21:40h. Fui para o Odeon e comprei o ingresso para a sessão seguinte. Quando olhei o bilhete... era do Cachaça Cinema Clube!!! Voltei na bilheteria, perguntei pelo Il Divo e tive a seguinte resposta: já saiu de cartaz. Quando o Rafa chegou eu estava perplexa com a confusão que eu havia feito.

Como o Rafael é cuca fresca, entramos às 21:40h na sessão do Cachaça, que havia começado às 21h... só furada! Demos boas gargalhadas, mas fiquei com aquela frustração por não ter visto o filme italiano. Depois descobri que troquei o cinema, Il Divo estava no Espaço de Cinema às 21:40h.

Enfim, minha primeira tentativa de marcar filmes com os amigos foi uma roubada, não pelos curtas em si, mas pelos desencontros. Que não pararam por aqui. No sábado seguinte encontrei uma amiga que ficou me esperando no cinema para ver Budapeste. Ela decidiu na hora e não me ligou, resolveu ir de surpresa e foi surpreendida. Ainda bem que ela também é descolada e viu o filme sozinha, sem grilos.

Semana passada, com o feriado, decidi não ir ao cinema, mas hoje consegui encontrar duas amigas e vimos o filme do Simonal. Finalmente, encontros e bom filme!

Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

Surto Helvético











O tipo móvel metálico de Gutenberg revolucionou o mundo através da popularização de escritos. O conhecimento se espalhou no formato de livros, jornais, revistas etc. Vivemos uma sociedade imersa nas letras, nos tipos. Esse revolucionário objeto, o tipo móvel, era originalmente esculpido um a um por profissionais altamente qualificados. Seu desenho era, e ainda é, uma belíssima área do conhecimento chamada tipografia. Os tipógrafos de hoje se debruçam diante da tela do computador para criar famílias tipográficas – um alfabeto de maiúsculas, minúsculas, números, etc. todas com uma mesma identidade. Aqui no Brasil temos bons tipógrafos e só para citar uma fonte, destaco a Ghentileza Original, desenhada a partir dos murais do Profeta Gentileza, uma linda homenagem e um trabalho de preservação cultural.

O que isso tem a ver com cinema? Teriam muitas coisas, a apresentação dos créditos nos filmes é a mais óbvia. Mas meu surto cinéfilo foi um documentário de 2007, feito em comemoração aos 50 anos da fonte Helvetica, uma das mais popularizadas pelo design moderno. Onipresente em sinalizações e logotipos de empresa ao redor do mundo, frequentemente associada à globalização. Foi a partir dela que se desenhou a tão conhecida Arial.

O documentário mostra a opinião de designers veteranos e novatos sobre a fonte. Alguns entusiasmados outros revoltados com o uso da velhusca do pós-guerra. É interessante perceber quanta informação um desenho de letra, aparentemente simples, é capaz de carregar. Ou melhor, quanto simbolismo há em coisas que passam por nós a cada minuto e não estamos conscientes disso. E como a história de um símbolo depende da apropriação que se faz dele. A Helvetica pretendia ser um tipo neutro, que se encaixa bem em qualquer situação e por isso, abrangente, arauto de todas as idéias, suficiente. Essa neutralidade é posta à prova no filme e mostra-se que seu uso pertence a uma ideologia.















“Para escrever a palavra cachorro a letra não precisa latir”
Massimo Vignelli, designer veterano responsável pela identidade de várias empresas como a AmericanAirlines.













“Isso aqui é cachorro? Claro que não, não vejo cachorro aqui”
David Carson – designer ganhador de mais de 140 prêmios – diante de um mural com várias palavras escritas em Helvetica.

Ainda não entendeu o porquê da palavra surto no título deste texto? Sempre que vejo esse documentário fico procurando a Helvetica por todos os lados... confira o cartaz e encontre-as por aí...



















Site oficial do filme


Tipografia na Wikipedia, tem um desenho mostrando a anatomia do tipo móvel.


Sobre a Helvetica na Wikipedia, tem uma comparação dela com a Arial.


Tupigrafia, excelente revista brasileira de tipografia

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Incômodo Manero








A luz se acende no fundo do cenário da retina, todos os brilhos, as cores e sorrisos, movimentos, tudo é tão perfeito que caímos no pecado original do desejo de ser a própria perfeição, ser deus. Quando essa luz se acende nossos desejos salivam como uma besta e os olhos param hipinotizados por essa imagem. Não vemos nada além dela. Olhamos o espelho e já não vemos nosso reflexo, mas aquela imagem iluminada de tudo que queríamos ser... deuses perfeitos feito cinema, novela e foto de revista.

Quando essa luz se acende já não somos nós. Tony, você é maneiro demais!
Acende-se a luz, fecha-se a cortina e lá fora a vida passa empoeirada, suja e feia como sempre foi. Mas Tony é maneiro, alucinante, hipinótico. Já não somos nós por livre iniciativa. Somos ele, Manero.

Quantos brilhos bailam diante da mente imaginada, enquanto o rolo da vida não para de rodar. Não para! E mesmo que o espelho nos mostre não vemos o ridículo que se reflete, porque a p* da projeção do filme também não para de rodar. Lá dentro, na nossa imaginação.

Tony, eu também sou maneira!

Site oficial do filme

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Desbunde visual

Sedução











indumentária













acessórios













Padronagens, muitas!!!













Vi recentemente diversos filmes sobre rainhas, comecei pela Maldição da Flor Dourada e a última foi Elizabeth. Entre eles está Maria Antonieta de Sofia Coppola, um dos que mais me impressionaram. O filme é visualmente encantador e lança um olhar diferente sobre a última rainha da França. Não que eu tivesse alguma idéia formada sobre ela, que pra mim sempre foi aquela que perdeu a cabeça, nada mais – pura alienação histórica. Tenho meus preconceitos tanto com a realeza quanto com a Revolução Francesa...


Mas felizmente, esse filme não pretendeu ser histórico, não mostrou fatos e trouxe Maria Antonieta para o mundo dos mortais. Pra mim ele não fala de uma única rainha, mas de tantas outras mulheres da realeza, que por acordos políticos eram obrigadas a largar sua família, seu ambiente, sua pátria e todos os laços afetivos antes dos dezoito anos para se casar com um homem que nunca viu.

Teria que ser bondosa, sorridente e sedutora. Forte o suficiente para manter o acordo político. Em contrapartida, essa menina teria todos os luxos e mimos que desejasse... não é difícil pensar em excessos...

E excessos era o que não faltava em Versailles. Maria Antonieta apenas usufruiu disso como desejou. Sempre achei a cultura material dessa época na França um exagero e rechaçava prontamente. No entanto, o filme de Sofia Coppola me levou a uma descoberta do quão deslumbrante e belo esse universo pode ser. Agora penso que uma pesquisa profunda sobre essa época seria uma boa experiência para o meu repertório gráfico. Lê, temos muito o que conversar...

Estou felicísssima pela descoberta e compartilho com a personagem seu encanto ao entrar no castelo, sintome-me como ela nessa cena.

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Honra, Orgulho e Preconceito


Semana passada vi os posts do Pablo Vilaça sobre trilha sonora e fiquei viajando nisso. Fiz uma lista dos filmes de trilhas marcantes para mim, mas ainda não é hora de falar dela. No entanto, fiquei com isso na cabeça. Hoje, casualmente, resolvi ouvir música no meu mp3 do celular e lá estava a trilha sonora do Orgulho e Preconceito, que a minha irmã me deu e eu ainda não tinha ouvido. Passei o dia ouvindo no modo contínuo, no ônibus, no trabalho... e havia sempre uma música que me fazia parar o que estava fazendo para conferir o título: Darcy's Letter. É linda e toca num momento especial do filme, na segunda cena que eu mais amo.

O filme é lindo, tem uma fotografia belíssima e cenas sensacionais. Hoje, depois do trabalho, passei na casa da minha irmã e revimos algumas cenas, depois eu vi mais algumas em casa e poderia fazer uma seleção de belos movimentos, mas não encontrei nada imediato no YouTube, então, ficarei devendo.

Honra
2.Sentimento de dignidade própria que leva o indivíduo a procurar merecer e manter a consideração geral; pundonor, brio (dic. Aurélio).


A história do filme, adaptação do livro homônimo de Jane Austen, me fala de honra e dignidade. Ter uma pitada de orgulho é fundamental para manter o respeito e preconceito é um mal que demonstra excesso de orgulho. Entre ambos está a honra. Oscilamos entre o necessário e o demasiado, um desses equilíbrios delicados que a vida possui. Fiquei pensando que nos dias atuais a honra não é coisa que valha muito e não temos como experimentar o significado dela no século XVIII, quando o livro foi escrito. Creio que substituimos ela pelo respeito à individualidade. E acho que dá para pensar nesse orgulho necessário como o amor-próprio, sendo o preconceito como seu excesso, quando nos tornamos a medida para todos e julgamos o outro a partir de nós. 

Assim, quando se nega um pedido que nos favoreceria mas fere nossa auto-estima, isso reforça a dignidade ou autenticidade que temos.

Minhas irmãs dizem que eu vejo coisas nos filmes que não estão lá, tudo bem, estão aqui. É pra isso que serve esse blog. E foi essa a minha interpretação de Orgulho e Preconceito.

Confiram a música que me marcou hoje nesse link.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Vicky, Closer, Cristina

O que Closer e Vicky Cristina Barcelona têm em comum? A certeza final de que não sabemos amar. Os dois filmes são bem diferentes. Em Closer eu disse: “que merda! Não temos jeito, somos todos doentes” e no filme de Woody Allen eu disse: “que merda, como somos ridículos! Não sabemos o que queremos”. O primeiro entristece, o segundo ridiculariza nossa incapacidade para o amor. Nenhum dos dois é otimista e eu também não. Apesar disso, ninguém desencoraja o empreendedoristo afetivo. Ao contrário, amar é uma aventura necessária. E assim como Cristina, seguiremos nessa busca interna daquilo que não sabemos bem o que é, mas que provavelmente está mais acessível do que imaginamos. E não há nada de ridículo nisso.